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| Homilia
de Bento XVI na Vigília Pascal |
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Amados
irmãos e irmãs,
Dois grandes sinais caracterizam a celebração litúrgica
da Vigília Pascal. Temos antes de mais nada o fogo que se
torna luz. A luz do círio pascal que, na procissão
através da igreja encoberta na escuridão da noite,
se torna uma onda de luzes, fala-nos de Cristo como verdadeira estrela
da manhã eternamente sem ocaso, fala-nos do Ressuscitado
em quem a luz venceu as trevas. O segundo sinal é a água.
Esta recorda, por um lado, as águas do Mar Vermelho, o afundamento
e a morte, o mistério da Cruz; mas, por outro, aparece-nos
como água nascente, como elemento que dá vida na aridez.
Torna-se assim imagem do sacramento do Baptismo, que nos faz participantes
da morte e ressurreição de Jesus Cristo.
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Mas não
são apenas estes grandes sinais da criação,
a luz e a água, que fazem parte da liturgia da Vigília
Pascal; outra característica verdadeiramente essencial
da Vigília é o facto de nos proporcionar um vasto
encontro com a palavra da Sagrada Escritura. Antes da reforma
litúrgica, havia doze leituras do Antigo Testamento e duas
do Novo. As do Novo Testamento permaneceram; entretanto o número
das leituras do Antigo Testamento acabou fixado em sete, que,
atendendo às situações locais, se podem reduzir
a três leituras. A Igreja quer, através de uma ampla
visão panorâmica, conduzir-nos ao longo do caminho
da história da salvação, desde a criação
passando pela eleição e a libertação
de Israel até aos testemunhos proféticos, pelos
quais toda esta história se orienta cada vez mais claramente
para Jesus Cristo.
Na tradição litúrgica, todas estas leituras
se chamavam profecias: mesmo quando não são directamente
vaticínios de acontecimentos futuros, elas têm um
carácter profético, mostram-nos o fundamento íntimo
e a direcção da história; fazem com que a
criação e a história se tornem transparentes
no essencial. Deste modo tomam-nos pela mão e conduzem-nos
para Cristo, mostram-nos a verdadeira luz.
Na Vigília Pascal, o percurso ao longo dos caminhos da
Sagrada Escritura começa pelo relato da criação.
Desta forma, a liturgia quer-nos dizer que também o relato
da criação é uma profecia. Não se
trata de uma informação sobre a realização
exterior da transformação do universo e do homem.
Bem cientes disto estavam os Padres da Igreja, que entenderam
este relato não como narração real das origens
das coisas, mas como apelo ao essencial, ao verdadeiro princípio
e ao fim do nosso ser. Ora, podemo-nos interrogar: mas, na Vigília
Pascal, é verdadeiramente importante falar também
da criação? Não se poderia começar
pelos acontecimentos em que Deus chama o homem, forma para Si
um povo e cria a sua história com os homens na terra? A
resposta deve ser: não! Omitir a criação
significaria equivocar-se sobre a história de Deus com
os homens, diminuí-la, deixar de ver a sua verdadeira ordem
de grandeza. O arco da história que Deus fundou chega até
às origens, até à criação.
A nossa profissão de fé inicia com as palavras:
«Creio em Deus, Pai todo-poderoso, Criador do Céu
e da Terra». Se omitimos este início do Credo, a
história global da salvação torna-se demasiado
restrita, demasiado pequena. A Igreja não é uma
associação qualquer que se ocupa das necessidades
religiosas dos homens e cujo objectivo se limitaria precisamente
ao de uma tal associação. Não, a Igreja leva
o homem ao contacto com Deus e, consequentemente, com o princípio
de tudo. Por isso, Deus tem a ver connosco como Criador, e por
isso possuímos uma responsabilidade pela criação.
A nossa responsabilidade inclui a criação, porque
esta provém do Criador. Deus pode dar-nos vida e guiar
a nossa vida, só porque Ele criou o todo. A vida na fé
da Igreja não abrange somente o âmbito de sensações
e sentimentos e porventura de obrigações morais;
mas abrange o homem na sua integralidade, desde as suas origens
e na perspectiva da eternidade. Só porque a criação
pertence a Deus, podemos depositar n’Ele completamente a
nossa confiança. E só porque Ele é Criador,
é que nos pode dar a vida por toda a eternidade. A alegria
e gratidão pela criação e a responsabilidade
por ela andam juntas uma com a outra.
Podemos determinar ainda mais concretamente a mensagem central
do relato da criação. Nas primeiras palavras do
seu Evangelho, São João resumiu o significado essencial
do referido relato com uma única frase: «No princípio,
era o Verbo». Com efeito, o relato da criação,
que ouvimos anteriormente, caracteriza-se pela frase que aparece
com regularidade: «Disse Deus…». O mundo é
uma produção da Palavra, do Logos, como se exprime
João com um termo central da língua grega. «Logos»
significa «razão», «sentido», «palavra».
Não é apenas razão, mas Razão criadora
que fala e comunica a Si mesma.
Trata-se de Razão que é sentido, e que cria, Ela
mesma, sentido. Por isso, o relato da criação diz-nos
que o mundo é uma produção da Razão
criadora. E deste modo diz-nos que, na origem de todas as coisas,
não está o que é sem razão, sem liberdade;
pelo contrário, o princípio de todas as coisas é
a Razão criadora, é o amor, é a liberdade.
Encontramo-nos aqui perante a alternativa última que está
em jogo na disputa entre fé e incredulidade: o princípio
de tudo é a irracionalidade, a falta de liberdade e o acaso,
ou então o princípio do ser é razão,
liberdade, amor? O primado pertence à irracionalidade ou
à razão? Tal é a questão de que, em
última análise, se trata.
Como crentes, respondemos com o relato da criação
e com João: na origem, está a razão. Na origem,
está a liberdade. Por isso, é bom ser uma pessoa
humana. Assim o que sucedera no universo em expansão não
foi que por fim, num angulozinho qualquer do cosmos, ter-se-ia
formado por acaso também uma espécie como qualquer
outra de ser vivente, capaz de raciocinar e de tentar encontrar
na criação uma razão ou de lha conferir.
Se o homem fosse apenas um tal produto casual da evolução
num lugar marginal qualquer do universo, então a sua vida
seria sem sentido ou mesmo um azar da natureza. Mas não!
No início, está a Razão, a Razão criadora,
divina. E, dado que é Razão, ela criou também
a liberdade; e, uma vez que se pode fazer uso indevido da liberdade,
existe também o que é contrário à
criação. Por isso se estende, por assim dizer, uma
densa linha escura através da estrutura do universo e através
da natureza do homem. Mas, apesar desta contradição,
a criação como tal permanece boa, a vida permanece
boa, porque na sua origem está a Razão boa, o amor
criador de Deus. Por isso, o mundo pode ser salvo. Por isso podemos
e devemos colocar-nos da parte da razão, da liberdade e
do amor, da parte de Deus que nos ama de tal maneira que Ele sofreu
por nós, para que, da sua morte, pudesse surgir uma vida
nova, definitiva, restaurada.
O relato veterotestamentário da criação,
que escutámos, indica claramente esta ordem das coisas.
Mas faz-nos dar um passo mais em frente. O processo da criação
aparece estruturado no quadro de uma semana que se orienta para
o Sábado, encontrando neste a sua perfeição.
Para Israel, o Sábado era o dia em que todos podiam participar
no repouso de Deus, em que homem e animal, senhor e escravo, grandes
e pequenos estavam unidos na liberdade de Deus. Assim o Sábado
era expressão da aliança entre Deus, o homem e a
criação.
Deste modo, a comunhão entre Deus e o homem não
aparece como um acréscimo, algo instaurado posteriormente
num mundo cuja criação estava já concluída.
A aliança, a comunhão entre Deus e o homem, está
prevista no mais íntimo da criação. Sim,
a aliança é a razão intrínseca da
criação, tal como esta é o pressuposto exterior
da aliança. Deus fez o mundo, para haver um lugar no qual
Ele pudesse comunicar o seu amor e a partir do qual a resposta
de amor retornasse a Ele. Diante de Deus, o coração
do homem que Lhe responde é maior e mais importante do
que todo o imenso universo material que, certamente, já
nos deixa vislumbrar algo da grandeza de Deus.
Entretanto, na Páscoa e a partir da experiência pascal
dos cristãos, devemos ainda dar mais um passo. O Sábado
é o sétimo dia da semana. Depois de seis dias em
que o homem, de certa forma, participa no trabalho criador de
Deus, o Sábado é o dia do repouso. Mas, na Igreja
nascente, sucedeu algo de inaudito: no lugar do Sábado,
do sétimo dia, entra o primeiro dia. Este, enquanto dia
da assembleia litúrgica, é o dia do encontro com
Deus por meio de Jesus Cristo, que no primeiro dia, o Domingo,
encontrou como Ressuscitado os seus, depois que estes encontraram
vazio o sepulcro. Agora inverte-se a estrutura da semana: já
não está orientada para o sétimo dia, em
que se participa no repouso de Deus; a semana inicia com o primeiro
dia como dia do encontro com o Ressuscitado. Este encontro não
cessa jamais de verificar-se na celebração da Eucaristia,
durante a qual o Senhor entra de novo no meio dos seus e dá-Se
a eles, deixa-Se por assim dizer tocar por eles, põe-Se
à mesa com eles.
Esta mudança é um facto extraordinário, quando
se considera que o Sábado – o sétimo dia –
está profundamente radicado no Antigo Testamento como o
dia do encontro com Deus. Quando se pensa como a passagem do trabalho
ao dia do repouso corresponde também a uma lógica
natural, torna-se ainda mais evidente o alcance impressionante
de tal alteração. Este processo inovador, que se
deu logo ao início do desenvolvimento da Igreja, só
se pode explicar com o facto de ter sucedido algo de inaudito
em tal dia. O primeiro dia da semana era o terceiro depois da
morte de Jesus; era o dia em que Ele Se manifestou aos seus como
o Ressuscitado. De facto, este encontro continha nele algo de
impressionante. O mundo tinha mudado.
Aquele que estivera morto goza agora de um vida que já
não está ameaçada por morte alguma. Fora
inaugurada uma nova forma de vida, uma nova dimensão da
criação. O primeiro dia, segundo o relato do Génesis,
é aquele em que teve início a criação.
Agora tornara-se, de uma forma nova, o dia da criação,
tornara-se o dia da nova criação. Nós celebramos
o primeiro dia. Deste modo celebramos Deus, o Criador, e a sua
criação. Sim, creio em Deus, Criador do Céu
e da Terra. E celebramos o Deus que Se fez homem, padeceu, morreu,
foi sepultado e ressuscitou. Celebramos a vitória definitiva
do Criador e da sua criação. Celebramos este dia
como origem e simultaneamente como meta da nossa vida. Celebramo-lo
porque agora, graças ao Ressuscitado, vale de modo definitivo
que a razão é mais forte do que a irracionalidade,
a verdade mais forte do que a mentira, o amor mais forte do que
a morte. Celebramos o primeiro dia, porque sabemos que a linha
escura que atravessa a criação não permanece
para sempre. Celebramo-lo, porque sabemos que agora vale definitivamente
o que se diz no fim do relato da criação: «Deus
viu que tudo o que tinha feito; era tudo muito bom» (Gn
1, 31). Amen.
Papa
Bento XVI
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