É
algo mais do que uma cerimônia, do que um louvável
costume? Porventura terá a ver com a verdadeira realidade
da nossa vida, do nosso mundo? Para encontrar a resposta, temos
antes de mais nada de esclarecer o que é que o próprio
Jesus realmente quis e fez. Depois da profissão de fé
que Pedro fizera em Cesareia de Filipe, no extremo norte da Terra
Santa, Jesus encaminhara-Se como peregrino na direção
de Jerusalém para as festividades da Páscoa. Caminha
para o templo na Cidade Santa, para aquele lugar que, de modo
particular, garantia a Israel que Deus estava próximo do
seu povo. Caminha para a festa comunitária da Páscoa,
memorial da libertação do Egito e sinal da esperança
na libertação definitiva. Jesus sabe que
O espera uma Páscoa nova, e que Ele mesmo tomará
o lugar dos cordeiros imolados, oferecendo-Se a Si mesmo na Cruz.
Sabe que, nos dons misteriosos do pão e do vinho, dar-Se-á
para sempre aos seus, abrir-lhes-á a porta para um novo
caminho de libertação, para a comunhão com
o Deus vivo. Ele caminha para a altura da Cruz, para o momento
do amor que se dá. O termo último da sua peregrinação
é a altura do próprio Deus, até à
qual Ele quer elevar o ser humano.
Assim, a nossa
procissão de hoje quer ser imagem de algo mais profundo,
imagem do fato que nos encaminhamos em peregrinação,
juntamente com Jesus, pelo caminho alto que leva ao Deus vivo.
É desta subida que se trata: tal é o caminho, a
que Jesus nos convida. Mas, nesta subida, como podemos andar no
mesmo passo que Ele? Porventura não ultrapassa as nossas
forças? Sim, está acima das nossas próprias
possibilidades. Desde sempre – e hoje ainda mais –
os homens nutriram o desejo de "ser como Deus"; de alcançar,
eles mesmos, a altura de Deus. Em todas as invenções
do espírito humano, em última análise, procura-se
conseguir asas para poder elevar-se à altura do Ser divino,
para se tornar independentes, totalmente livres, como o é
Deus. A humanidade pôde realizar tantas coisas: somos capazes
de voar; podemos ver-nos uns aos outros, ouvir e falar entre nós
dum extremo do mundo para o outro. E todavia a força de
gravidade que nos puxa para baixo é poderosa. A par das
nossas capacidades, não cresceu apenas o bem; cresceram
também as possibilidades do mal, que se levantam como tempestades
ameaçadoras sobre a história. E perduram também
os nossos limites: basta pensar nas catástrofes que, nestes
meses, afligiram e continuam a afligir a humanidade.
Os Padres
disseram que o homem está colocado no ponto de
intersecção de dois campos de gravidade. Temos,
por um lado, a força de gravidade que puxa para baixo:
para o egoísmo, para a mentira e para o mal; a
gravidade que nos rebaixa e afasta da altura de Deus. Por
outro lado, há a força de gravidade do amor de Deus:
sabermo-nos amados por Deus e a resposta do nosso amor puxam-nos
para o alto. O homem encontra-se no meio desta dupla força
de gravidade, e tudo depende de conseguir livrar-se do campo de
gravidade do mal e ficar livre para se deixar atrair totalmente
pela força de gravidade de Deus, que nos torna verdadeiros,
nos eleva, nos dá a verdadeira liberdade.
Depois da
Liturgia da Palavra e logo no início da Oração
Eucarística, durante a qual o Senhor entra no meio de nós,
a Igreja dirige-nos este convite: «Sursum corda –
corações ao alto!». O coração,
segundo a concepção bíblica e na visão
dos Padres, é aquele centro do homem onde se unem o intelecto,
a vontade e o sentimento, o corpo e a alma; é aquele centro,
onde o espírito se torna corpo e o corpo se torna espírito,
onde vontade, sentimento e intelecto se unem no conhecimento de
Deus e no amor a Ele. Este «coração»
deve ser elevado. Mas, também aqui, sozinhos somos demasiado
frágeis para elevar o nosso coração até
à altura de Deus; não somos capazes disso. É
precisamente a soberba de o podermos fazer sozinhos que nos puxa
para baixo e afasta de Deus. O próprio Deus tem de puxar-nos
para o alto; e foi isto que Cristo começou a fazer na Cruz.
Desceu até à humilhação extrema da
existência humana, a fim de nos puxar para o alto rumo a
Ele, rumo ao Deus vivo. Jesus humilhou-Se: diz hoje a segunda
leitura. Só assim podia ser superada a nossa soberba: a
humildade de Deus é a forma extrema do seu amor, e este
amor humilde atrai para o alto.
O salmo processional
24, que a Igreja nos propõe como «cântico de
subida» para a liturgia de hoje, indica alguns elementos
concretos, que pertencem à nossa subida e sem os quais
não podemos ser elevados para o alto: as mãos inocentes,
o coração puro, a rejeição da mentira,
a procura do rosto de Deus. As grandes conquistas da
técnica só nos tornam livres e são elementos
de progresso da humanidade, se forem acompanhadas por estas atitudes:
se as nossas mãos se tornarem inocentes e o coração
puro, se permanecermos à procura da verdade, à procura
do próprio Deus e nos deixarmos tocar e interpelar pelo
seu amor. Mas todos estes elementos da subida só
serão úteis, se reconhecermos com humildade que
devemos ser puxados para o alto, se abandonarmos a soberba de
querermos, nós mesmos, fazer-nos Deus. Temos necessidade
d’Ele: Deus puxa-nos para o alto; permanecer apoiados pelas
suas mãos – isto é, na fé – dá-nos
a orientação justa e a força interior que
nos eleva para o alto. Temos necessidade da humildade da fé,
que procura o rosto de Deus e se entrega à verdade do seu
amor.
A questão
de saber como pode o homem chegar ao alto, tornar-se plenamente
ele próprio e verdadeiramente semelhante a Deus, desde
sempre ocupou a humanidade. Foi objeto de apaixonada discussão
pelos filósofos platônicos dos séculos terceiro
e quarto. A sua pergunta central era esta: como encontrar meios
de purificação, pelos quais o homem pudesse libertar-se
do gravoso peso que o puxa para baixo e elevar-se à altura
do seu verdadeiro ser, à altura da divindade. Santo Agostinho,
na sua busca do reto caminho, durante um certo período
procurou apoio em tais filosofias. Mas, no fim, teve de reconhecer
que a sua resposta não era suficiente, que ele, com tais
métodos, não chegaria verdadeiramente a Deus. Disse
aos seus representantes: Reconhecei, pois, que não basta
a força do homem e de todas as suas purificações
para o levar verdadeiramente à altura do divino, à
altura que lhe é condigna. E disse que teria desesperado
de si mesmo e da existência humana, se não tivesse
encontrado Aquele que faz o que nós mesmos não podemos
fazer, Aquele que nos eleva à altura de Deus, apesar da
nossa miséria: Jesus Cristo, que desceu de junto de Deus
até nós e, no seu amor crucificado, nos toma pela
mão e nos conduz ao alto.
Com
o Senhor, caminhamos, peregrinos, para o alto. Andamos à
procura do coração puro e das mãos inocentes,
andamos à procura da verdade, procuramos o rosto de Deus.
Manifestamos ao Senhor o desejo de nos tornar justos e pedimos-Lhe:
Atraí-nos, Vós, para o alto! Tornai-nos puros! Fazei
que se cumpra em nós a palavra do salmo processional que
cantamos, ou seja, que possamos pertencer à geração
dos que procuram Deus, «que procuram a face do Deus de Jacob»
(Sal 24/23, 6). Amem.
BENEDICTUS PP XVI
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