que faremos
nas próximas catequeses para aprender a conhecer mais a
Bíblia, que espero que tenhais nas vossas casas, e, durante
a semana, dedicar-se a lê-la e meditá-la na oração,
para conhecer a maravilhosa história do relacionamento
entre Deus e o homem, entre Deus que se comunica a nós
e o homem que responde, que reza.
O primeiro
texto sobre o qual desejamos refletir encontra-se no capítulo
18 do Livro do Gênesis; narra-se que a malvadeza dos habitantes
de Sodoma e Gomorra havia chegado ao seu ápice, tanto que
se tornou necessário uma intervenção de Deus
para realizar um ato de justiça e parar o mal, destruindo
aquelas cidades. É aqui que se insere Abraão com
a sua oração de intercessão. Deus decide
revelar-lhe aquilo que está para acontecer e lhe faz conhecer
a gravidade do mal e as suas terríveis consequências,
porque Abraão é o seu eleito, escolhido para se
tornar um grande povo e para fazer chegar a bênção
divina a todo o mundo. A sua é uma missão de salvação,
que deve responder ao pecado que invadiu a realidade do homem;
através dele, o Senhor, quis reportar a humanidade à
fé, à obediência, à justiça.
E agora, esse amigo de Deus abre-se à realidade e à
necessidade do mundo, reza por aqueles que estão para ser
punidos e pede que sejam salvos.
Abraão
compreende imediatamente o problema em toda a sua gravidade, e
diz ao Senhor: "Fareis o justo perecer com o ímpio?
Talvez haja cinquenta justos na cidade: fá-los-eis perecer?
Não perdoaríeis antes a cidade, em atenção
aos cinquenta justos que nela se poderiam encontrar? Não,
vós não poderíeis agir assim, matando o justo
com o ímpio, e tratando o justo como ímpio! Longe
de vós tal pensamento! Não exerceria o juiz de toda
a terra a justiça?" (vv. 23-25). Com essas palavras,
com grande coragem, Abraão coloca diante de Deus a necessidade
de evitar uma justiça sumária: se a cidade é
culpável, é justo condenar o seu crime e infligir
a pena, mas – afirma o grande Patriarca – seria injusto
punir de modo indiscriminado todos os habitantes. Se na cidade
há alguns inocentes, esses não podem ser tratados
como os culpáveis. Deus, que é um juiz justo, não
pode agir assim, diz Abraão justamente a Deus.
Se lemos,
no entanto, mais atentamente o texto, damo-nos conta de que o
pedido de Abraão é ainda mais sério e profundo,
porque não se limita a demandar a salvação
para os inocentes. Abraão pede o perdão para toda
a cidade e o faz apelando à justiça de Deus; diz,
de fato, ao Senhor: "Não perdoaríeis antes
a cidade, em atenção aos cinquenta justos que nela
se poderiam encontrar?" (v. 24b). Assim fazendo,
coloca em jogo uma nova ideia de justiça: não aquela
que se limita a punir os culpáveis, como fazem os homens,
mas uma justiça diferente, divina, que busca o bem e o
cria través do perdão que transforma o pecador,
converte-o e salva-o. Com a sua oração,
portanto, Abraão não invoca uma justiça meramente
retributiva, mas uma intervenção de salvação
que, tendo em conta os inocentes, liberte da culpa também
os ímpios, perdoando-os. O pensamento de Abraão,
que parece quase paradoxal, poderia ser sintetizado assim: obviamente
não se podem tratar os inocentes como os culpáveis,
isso seria injusto, é necessário, ao contrário,
tratar os culpáveis como inocentes, colocando em ação
uma justiça "superior", oferecendo a eles uma
possibilidade de salvação, porque se os malfeitores
aceitam o perdão de Deus e confessam as culpas deixando-se
salvar, não continuarão mais a fazer o mal, tornar-se-ão
também esses justos, sem mais necessidade de serem punidos.
É
esse o pedido de justiça que Abraão expressa na
sua intercessão, um pedido que se baseia sobre a certeza
de que o Senhor é misericordioso.
Abraão não pede a Deus algo contrário à
sua essência, bate à porta do coração
de Deus conhecendo a sua verdadeira vontade. Certamente Sodoma
é uma grande cidade, cinquenta justos parecem pouca coisa,
mas a justiça de Deus e o seu perdão não
são talvez a manifestação da força
do bem, também se parece menor e mais débil que
o mal? A destruição de Sodoma devia parar
o mal presente na cidade, mas Abraão sabe que Deus tem
outros modos e outros meios para colocar obstáculos à
difusão do mal. É o perdão que interrompe
a espiral do pecado, e Abraão, no seu diálogo com
Deus, apela exatamente a isso. E quando o Senhor aceita
perdoar a cidade se ali encontrar cinquenta justos, a sua oração
de intercessão começa a subir às profundezas
da misericórdia divina. Abraão – como recordamos
– faz diminuir progressivamente o número dos inocentes
necessários para a salvação: se não
fossem cinquenta, poderiam bastar quarenta e cinco, e depois sempre
mais para baixo até dez, continuando com a sua súplica,
que se faz quase ardente na insistência: "talvez lá
se encontrem quarenta… trinta… vinte… dez"
(cf. vv. 29.30.31.32). E quanto menor torna-se o número,
maior revela-se e manifesta-se a misericórdia de Deus,
que escuta com paciência a oração, acolhe-a
e repete a cada súplica: "perdoarei, ...não
destruirei, ...não o farei" (cf. vv. 26.28.29.30.31.32).
Assim, pela
intercessão de Abraão, Sodoma poderá ser
salva, se nessa se encontrarem também somente dez inocentes.
É esse o poder da oração. Porque através
da intercessão, a oração a Deus pela salvação
dos outros, manifesta-se e expressa-se o desejo de salvação
que Deus nutre sempre pelo homem pecador. O mal, de fato, não
pode ser aceito, deve ser assinalado e destruído através
da punição: a destruição de Sodoma
tinha exatamente essa função. Mas o Senhor não
quer a morte do malvado, mas que se converta e viva (cf. Ez 18,23;
33,11); o seu desejo é sempre aquele de perdoar, salvar,
dar a vida, transformar o mal em bem. Bem, é exatamente
esse o desejo divino que, na oração, torna-se desejo
do homem e expressa através de palavras de intercessão.
Com a sua súplica, Abraão está emprestando
a própria voz, mas também o próprio coração,
à vontade divina: o desejo de Deus é misericórdia,
amor e vontade de salvação, e esse desejo de Deus
encontrou em Abraão e na sua oração a possibilidade
de manifestar-se de modo concreto no interior da história
dos homens, para estar presente onde há necessidade de
graça. Com a voz da sua oração, Abraão
está dando voz ao desejo de Deus, que não é
aquele de destruir, mas de salvar Sodoma, de dar vida ao pecador
convertido.
É
isso que o Senhor deseja, e o seu diálogo com Abraão
é uma prolongada e inequívoca manifestação
do seu amor misericordioso.
A necessidade de encontrar homens justos no interior da cidade
torna-se sempre menos exigente e, ao final, bastarão dez
para salvar a totalidade da população. Por qual
motivo Abraão para em dez não é dito no texto.
Talvez seja um número que indica um núcleo comunitário
mínimo (ainda hoje, dez pessoas são o quórum
necessário para a oração pública hebraica).
No entanto, trata-se de um número exíguo, uma pequena
parcela do bem da qual partir para salvar um grande mal. Mas nem
mesmo dez justos se encontravam em Sodoma e Gomorra, e as cidades
foram destruídas. Uma destruição paradoxalmente
testemunhada como necessária exatamente pela oração
de intercessão de Abraão. Porque exatamente
aquela oração revelou a vontade salvífica
de Deus: o Senhor estava disposto a perdoar, desejava fazê-lo,
mas as cidades estavam fechadas em um mal totalizante e paralisante,
sem sequer poucos inocentes dos quais partir para transformar
o mal em bem. Por que é exatamente esse o caminho da salvação
que também Abraão pedia: ser salvos não quer
dizer simplesmente escapar da punição, mas ser libertos
do mal que em nós habita. Não é o castigo
que deve ser eliminado, mas o pecado, aquela recusa de Deus e
do amor que traz já em si o castigo. Dirá
o profeta Jeremias ao povo rebelde: "Valeu-te este castigo
tua malícia, e tuas infidelidades atraíram sobre
ti a punição. Sabe, portanto, e vê quanto
te foi funesto e amargo abandonar o Senhor teu Deus" (Jer
2,19). É dessa tristeza e amargura que o Senhor
quis salvar o homem libertando-o do pecado. Mas essa é
uma transformação do interior, uma inclinação
para o bem, um início do qual partir para transmutar o
mal em bem, o ódio em amor, a vingança em perdão.
Por isso os justos devem estar dentro da cidade, e Abraão
continuamente repete: "talvez lá se encontrem...".
"Lá": é dentro da realidade doente que
deve estar aquela semente do bem que pode curar e restituir a
vida. É uma palavra também a nós: que nas
nossas cidades se encontre a semente do bem; que façamos
de tudo para que sejam não somente dez os justos, para
fazer viver e sobreviver as nossas cidades e para salvar-nos dessa
amargura interior que é a ausência de Deus. E
na realidade doente de Sodoma e Gomorra aquela semente do bem
germe não se encontrava.
Mas
a misericórdia de Deus na história do seu povo alarga-se
ulteriormente. Se, para salvar Sodoma, serviam dez justos,
o profeta Jeremias dirá, em nome do Onipotente, que basta
um só justo para salvar Jerusalém: "Percorrei
as ruas de Jerusalém, olhai, perguntai; procurai nas praças,
vede se nelas encontrais um homem, um só homem que pratique
a justiça e que seja leal; então eu perdoarei a
cidade" (5,1). O número caiu novamente, a vontade
de Deus se mostra ainda maior. No entanto, isso ainda não
basta, a superabundante misericórdia de Deus não
encontra a resposta de bem que busca, e Jerusalém cai sob
o assédio do inimigo. Será preciso que Deus
mesmo torne-se aquele justo. E esse é o mistério
da Encarnação: para garantir um justo, Ele mesmo
de faz homem. O justo sempre estará presente porque é
Ele: é preciso, portanto, que Deus mesmo torne-se aquele
justo. O infinito e surpreendente amor divino será plenamente
manifestado quando o Filho de Deus se fizer homem, o Justo definitivo,
o perfeito Inocente, que levará a salvação
ao mundo inteiro morrendo na cruz, perdoando e intercedendo por
aqueles que "não sabem o que fazem" (Lc 23,34).
Então a oração de cada homem encontrará
a sua resposta, então toda a nossa intercessão será
plenamente atendida.
Queridos
irmãos e irmãs, a súplica de Abraão,
nosso pai na fé, ensine-nos a abrir sempre mais o coração
à misericórdia superabundante de Deus, para que
na oração cotidiana saibamos desejar a salvação
da humanidade e pedi-la com perseverança e com confiança
ao Senhor que é grande no amor. Obrigado.
BENEDICTUS PP XVI
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