Deus, isto
é, sobre a meditação. O que é a meditação?
Meditar quer dizer “fazer memória” do que Deus
fez e não esquecer dos seus muitos benefícios (cf.
Sal 103, 2b). Frequentemente, vemos somente as coisas negativas;
devemos ter em nossa memória também as coisas positivas,
os dons que Deus nos fez, estar atentos aos sinais positivos que
vêm de Deus e recordá-los. Portanto, falamos de um
tipo de oração que, na tradição cristã,
é conhecida como “oração mental”.
Nós conhecemos normalmente as orações com
as palavras; naturalmente, também a mente e o coração
devem estar presentes neste tipo de oração, mas,
neste caso, falamos de uma meditação que não
está feita de palavras, mas que é uma forma de contato
da nossa mente com o coração de Deus. E Maria, nisso,
é um modelo muito real.
O evangelista
Lucas repete, várias vezes, que Maria “guardava todas
estas coisas, meditando-as no seu coração”
(2,19; cf. 2,51b). Quem guarda não esquece. Ela está
atenta a tudo o que o Senhor lhe disse e fez, e medita, ou seja,
tem contato com diversas coisas, aprofundando nelas dentro do
coração.
Aquela que,
portanto, “acreditou” no anúncio do Anjo, que
se tornou instrumento para que a Palavra eterna do Altíssimo
pudesse se encarnar, acolheu também em seu coração
o admirável prodígio desse nascimento humano-divino,
meditou sobre ele, se deteve diante de tudo o que Deus estava
realizando nela para acolher a vontade divina em sua vida e corresponder
a ela. O mistério da Encarnação do Filho
de Deus e da maternidade de Maria é tão grande,
que exige um processo de interiorização; não
é somente algo físico que Deus realiza nela, mas
algo que exige uma interiorização por parte de Maria,
que busca aprofundar no conhecimento, interpretar o sentido, compreender
suas implicações e consequências. Assim, dia
a dia, no silêncio da vida cotidiana, Maria continuou guardando
em seu coração os maravilhosos acontecimentos posteriores
de que foi testemunha, até a prova extrema da cruz: seus
deveres cotidianos, sua missão de mãe, mas soube
manter em si um espaço interior para refletir sobre a palavra
e a vontade de Deus, sobre o que acontecia nela mesma, sobre os
mistérios da vida do seu Filho.
Em nossa
época, estamos sendo absorvidos por muitas atividades e
compromissos, preocupações, problemas; muitas vezes
se tende a preencher todos os espaços do dia, sem ter um
momento para parar, meditando e nutrindo a vida espiritual, o
contato com Deus. Maria nos ensina quão necessário
é encontrar em nossas jornadas, com todas as atividades,
momentos para recolher-nos em silêncio e meditar sobre o
que o Senhor quer nos ensinar, sobre como Ele está presente
e age no mundo e na nossa vida: ser capazes de parar um momento
e meditar. Santo Agostinho compara a meditação sobre
os mistérios de Deus à assimilação
dos alimentos e usa um verbo que aparece em toda a tradição
cristã: “rumiar”. Que os mistérios de
Deus, que ressoam continuamente em nós até se tornarem
familiares, guiem a nossa vida, nos alimentem, como acontece com
o alimento necessário para sustentar-nos. E São
Boaventura, referindo-se às palavras da Sagrada Escritura,
diz que “devem ser rumiadas para que possamos fixá-las
com ardente aplicação no ânimo” (Coll.
In Hex, ed. Quaracchi 1934, p. 218). Meditar, portanto, quer dizer
criar em nós uma situação de recolhimento,
de silêncio interior, para refletir, assimilar os mistérios
da nossa fé e o que Deus opera em nós. Podemos fazer
esta meditação de várias formas, tomando,
por exemplo, uma breve passagem da Sagrada Escritura, sobretudo
dos Evangelhos, dos Atos dos Apóstolos, das cartas dos
Apóstolos, ou talvez uma página de algum autor espiritual
que nos aproxima e torna mais presentes as realidades de Deus
no nosso hoje; talvez também buscando o conselho do confessor
ou do diretor espiritual, ler e refletir sobre o que se leu, parando
para pensar nisso, procurando compreender, entender o que diz
a nós, no dia de hoje; abrir nossa alma ao que o Senhor
quer nos dizer ou mostrar. Também o santo terço
é uma oração de meditação:
repetindo a Ave Maria, somos convidados a refletir sobre o mistério
que proclamamos. Podemos nos deter também em qualquer experiência
espiritual intensa, nas palavras que ficam impressas na participação
da Eucaristia dominical. Portanto, como podem ver, há muitas
maneiras de meditar e de ter contato com Deus, de aproximar-nos
dele e, dessa forma, estar no caminho rumo ao Paraíso.
Queridos
amigos, a constância em dedicar tempo a Deus é um
elemento fundamental para o crescimento espiritual; é o
próprio Senhor quem nos dará o prazer pelos seus
mistérios, pelas suas palavras, pela sua presença
e ação, por sentir quão belo é que
Deus fale conosco; Ele nos fará compreender de maneira
mais profunda o que quer de nós – afinal, este é
o objetivo da meditação: colocar-nos cada vez mais
nas mãos de Deus, com confiança e amor, na certeza
de que somente fazendo a sua vontade seremos, finalmente, felizes.
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Papa Bento XVI
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